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v. 26, n. 2, Passo Fundo, p. 318-322, maio/ago. 2019 | Disponível em www.upf.br/seer/index.php/rep
Este artigo está licenciado com a licença: Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
ESPAÇO
PEDAGÓGICO
EDITORIAL
Na sociedade contemporânea, programar não é importante somente para
profissionais da área de Tecnologia da Informação, mas para qualquer pessoa em
qualquer idade. Desenvolver habilidades de programação já no ensino fundamen-
tal cria situações que podem contribuir decisivamente para alavancar o potencial
das crianças no processo de construir conhecimento quando, onde e se precisarem.
Programar computadores está centrado no desenvolvimento de habilidades
cognitivas e não na memorização de conteúdos. Tal direcionamento é fundamental
em uma sociedade em que ter acesso a conteúdos não é mais prerrogativa do am-
biente escolar. Em pesquisa realizada por Martin Hilbert,
1
identificou-se que 97%
da informação da Terra está disponível em formato digital, dos quais 80% estão
disponíveis na internet.
O filósofo italiano Umberto Eco aponta que a sociedade do futuro será compos-
ta por três castas: a primeira, mais numerosa e na base da pirâmide, será formada
pelas pessoas que percebem o mundo pelos meios de comunicação de massa; a
segunda, intermediária na forma piramidal, será composta pelas pessoas que utili-
zam computadores, ou seja, utilizam e-mail, possuem contas em redes sociais, etc.;
e a terceira, a elite intelectual da sociedade do futuro, será composta por pessoas
que saibam programar computadores. Além disso, caso não aumentemos drasti-
camente o número de pessoas capazes de programar computadores, teremos um
colapso global em pouco tempo, uma vez que, com o advento da internet das coisas,
tudo será programável!
Entretanto, mais do que dar uma resposta às demandas do mundo contempo-
râneo, cada vez mais informatizado e programável, existe um número significativo
de desdobramentos desta prática para o desenvolvimento humano que a educação
não deve ignorar. Dentre eles, podemos destacar os seguintes.
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A programação desenvolve nas crianças uma cultura de produção de tecnolo-
gia e não somente de consumo. O desenvolvimento de uma postura de protagonis-
mo na criação de soluções para problemas que vão desde movimentar um gatinho
na tela – no caso do ambiente de programação Scratch, criado pelo Instituto de
Tecnologia de Massachusetts – até programar um braço robótico para levar uma
bolinha de isopor do ponto A ao ponto B.
A programação cria um espaço aberto para que as crianças expressem livre-
mente suas ideias, de forma multimídia, e testem suas hipóteses de melhor solução
para o que querem. Portanto, é pertinente afirmar que a programação de computa-
dores possibilita expressões criativas por parte das crianças.
Uma das grandes questões da educação é a nossa inabilidade em tratar o
erro. Não raramente, ele é visto como um atestado de incompetência, quando, na
verdade, é uma oportunidade rica de aprendizagem. Assim, aterrorizados pelo erro
e sua característica tinta vermelha, desenvolvemos em nossos estudantes a falsa
sensação de que não devemos experimentar, tentar novas soluções, sair da “trilha
de ouro” do livro didático, das lâminas do professor ou do que foi escrito no quadro.
Tudo para que não tenhamos que nos deparar com o erro. Ter medo de errar mata
gradativamente qualquer centelha de criatividade! Na programação, o erro acon-
tece, é detectado em tempo real e pode ser tratado imediatamente pela criança com
a ajuda dos colegas. Aprender a trabalhar com o erro é uma das grandes contribui-
ções da programação de computadores.
Programar computadores auxilia no desenvolvimento de competências de ma-
nipulação e seleção de informação, fundamentais em um mundo no qual a inter-
net nos dá acesso a uma quantidade de informação inimaginável 10 anos atrás.
Aprendendo a selecionar, criar e gerir múltiplas formas de mídia, incluindo textos,
imagens, animações e áudios, as crianças se tornam mais perspicazes e críticas na
análise dos recursos disponíveis.
Programar nos ajuda a desenvolver competências de comunicação. Uma co-
municação eficaz requer mais do que a capacidade de ler e escrever textos. Nessa
perspectiva, programar computadores envolve as crianças na escolha, manipula-
ção e integração de uma grande variedade de mídias, para se expressarem, indivi-
dualmente, de forma criativa e persuasiva.
Programar computadores auxilia no desenvolvimento do raciocínio crítico e do
pensamento sistêmico. Para construir seus projetos, as crianças necessitam coor-
denar o tempo e a interação entre múltiplos objetos móveis programáveis. Para
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programar, é preciso definir de antemão os passos necessários, todos os procedi-
mentos e sua ordem, a fim de que se possa resolver o problema apresentado.
A programação apoia a formulação de hipóteses de resolução de problemas.
Criar um programa requer que a criança, considerando um problema, divida-o em
partes menores, defina passos para solucioná-lo, formule hipóteses de resolução e
teste-as.
Programar aprimora competências interpessoais e de colaboração. Por ser,
geralmente, construído com blocos gráficos, o código de programação é mais com-
preensível e compartilhável, facilitando a colaboração entre as crianças e potencia-
lizando a partilha de blocos de código.
A disciplina e a iniciativa são duas competências desenvolvidas no ato de pro-
gramar. Ter uma ideia e descobrir como transformá-la em um programa de com-
putador requer persistência e prática. Quando os jovens trabalham em projetos
baseados em ideias que consideram pessoalmente importantes e significativas,
estas geram motivação para ultrapassar os desafios e as frustrações encontrados
no processo de concepção e de resolução de problemas.
A programação de uma solução para um problema real requer que se tenha em
mente a efetiva demanda das pessoas para as quais a criança está desenvolvendo o
programa e o modo como responderão ao programa feito. Geralmente, tal processo
ocasiona alterações no programa original. Essa dinâmica auxilia no desenvolvi-
mento de competências de empatia e plasticidade mental.
Mediante esse contexto, a Revista Espaço Pedagógico pauta o volume 26, nº 2, de
2019, em torno do tema “Pensamento computacional, programação e educação”, so
-
cializando estudos e experiências que advogam por processos educativos instigantes
do pensamento criativo e estratégico, tomando os fundamentos da computação para
a resolução de problemas e para o desenvolvimento de saberes/competências alinha
-
dos com as demandas do nosso tempo.
Os primeiros oito artigos que compõem essa temática central são subscritos
por pesquisadores de diferentes nacionalidades, Brasil, Peru, Itália e Portugal,
oportunizando que as discussões e práticas desses países sejam debatidas, coteja-
das, aprofundadas. Nesta primeira parte da Revista Espaço Pedagógico, temos as
contribuições dos seguintes trabalhos: Pensamiento computacional: una nueva exi-
gencia para la educación del siglo XXI, dos autores peruanos Edith Soria Valencia
e Carol Rivero Panaqué; Media literacy, coding e cittadinanza digitale: apprendere
e costruire con le tecnologie, do pesquisador italiano Mario Pireddu; Ensinar pro-
gramação em ambientes e-learning: preocupações e propostas no âmbito do modelo
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pedagógico virtual da Universidade Aberta de Portugal, que resulta da parceria
entre pesquisadores brasileiros e portugueses, Marcos Luiz Mucheroni, Elizabeth
Simão Carvalho e Adérito Fernandes Marcos; A programação de jogos como um
instrumento motivador da aprendizagem, subscrito por Sergio Crespo Coelho da
Silva Pinto e Marcelo Simas Mattos; Programação de computadores como uma
alternativa ao modelo metodológico padrão da apropriação da informática em pro-
cessos educativos, cuja autoria é de Marco Antonio Sandini Trentin, Ricardo Shit-
suka e Adriano Canabarro Teixeira; Novos desafios da EaD: programação e uso de
chatbots intitula o artigo dos portugueses Daniela Melaré Vieira Barros e Aníbal
Martins Guerreiro; Aprendizagem baseada em projetos num curso de técnico su-
perior profissional de desenvolvimento de software relata e teoriza a experiência
vivenciada por Paulo Alves, Carlos Morais e Luísa Miranda; finalizando o dossiê,
o artigo Ensino de programação em robótica com Arduino para alunos do ensino
fundamental: relato de experiência socializa o trabalho capitaneado por Luciano
Frontino de Medeiros e Luana Priscila Wünsch.
Na segunda parte da edição, contamos com uma variedade de temas que com-
põem os artigos de demanda contínua. São seis artigos que apresentam os estudos
de pesquisadores brasileiros, das mais diversas instituições de ensino superior e
da educação básica: A formação de professores no Pibid: novas práticas, novos de-
safios, subscrito por Liliane Silva de Antiqueira, Celiane Costa Machado e Elaine
Corrêa Pereira; Educação não formal nos contextos brasileiro e internacional: ten-
sões que perpassam a formulação conceitual, de Renata Sieiro Fernandes e Valéria
Aroeira Garcia; Ambientalização curricular: estudo de caso do Curso de Tecnologia
em Logística, cuja autoria é de Mario Sergio Cunha Alencastro e Jorge Wilson
Michalowski; Concepções dos alunos sobre os tensionamentos étnico-raciais na es-
cola e na sociedade, assinado por Fernanda Wanderer e Mônica Nunes; Proposta
de avaliação de pessoas com deficiência na escola: reflexões acerca das múltiplas
linguagens, dos pesquisadores José Anchieta de Oliveira Bentes, Rita de Nazareth
Souza Bentes e Huber Kline Guedes Lobato; e, fechando essa segunda parte, o ar-
tigo intitulado Reflexões sobre a relação de crianças surdas com um recurso digital
para a apropriação de língua portuguesa escrita em ambiente escolar, de Heloísa
Andreia de Matos Lins e Janaina Cabello.
A seção Diálogo com educadores apresenta uma instigante entrevista com o
renomado pesquisador André Luís Alice Raabe, que compartilha com os leitores da
Revista Espaço Pedagógico sua vasta experiência no tema do pensamento compu-
tacional e suas interfaces com a educação. Por fim, contamos com duas resenhas
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de obras relevantes e atuais no cenário acadêmico. Maria Augusta D’Arienzo dá
a conhecer a obra intitulada Trabalho, educação e inteligência artificial: a era do
indivíduo versátil, de Rui Fava, publicada pela Editora Penso, em 2018. Claudionei
Vicente Cassol apresenta a resenha da obra francesa do autor François de Singly,
intitulada Les uns avec les autres. A resenha se dá sobre a versão portuguesa,
publicada em 2006 pelo Instituto Piaget, sob o título Uns com os Outros: quando o
individualismo cria laços.
Almejamos, ao abordar estudos em tais temáticas, manter a tradição de publi-
cação de artigos de relevância acadêmica, que possam contribuir para a qualifica-
ção das pesquisas e para o aprofundamento das discussões no campo educacional.
Boa leitura!
Adriano Canabarro Teixeira (Organizador)
Daniela Melaré Vieira Barros (Organizadora)
Flávia Eloisa Caimi (Editora-Chefe)
Nota
1
Disponível em: <http://bit.do/science2011>. Acesso em: 25 fev. 2019.