Claudionei Vicente Cassol
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v. 26, n. 2, Passo Fundo, p. 612-615, maio/ago. 2019 | Disponível em www.upf.br/seer/index.php/rep
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Individualismo, autorreconhecimento e convívio
Claudionei Vicente Cassol
*
O professor François de Singly, nascido em 1948 na cidade francesa de Dreux,
catedrático da cadeira de Sociologia na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais
da Universidade de Sorbonne, em Paris, Diretor do Centro de Estudos e Pesquisas
sobre as Relações Sociais, especialista da família, das relações privadas e do ado-
lescente, publica, em 2003, na França, pela Editora Armand Colin, Les uns avec les
autres. O livro é traduzido em Portugal pelo Instituto Piaget e publicado, em 2006,
como Uns com os Outros: quando o individualismo cria laços, com 268 páginas
organizadas em cinco capítulos. Os títulos, geralmente seguidos de interrogações
acerca da discussão, têm expressivos subtítulos sintonizados com a proposta temá-
tica da possibilidade instituinte de laços sociais a partir do “individualismo”. A ver-
são portuguesa tem 15 páginas de introdução, dividida em subtítulos, e 8 páginas
de conclusão, índice de nomes contendo 4 páginas e sumário, ao final, após as 15
páginas de bibliografia. Trata-se de obra sociológica de leitura fluente, agradável,
com incursões para a filosofia e a psicologia.
Uns com os Outros segue, conscientemente, na oposição das tematizações ne-
gativas acerca dos tempos atuais que visualizam apenas carências/deficiências e
superficializações para as fortes tendências individualistas. Apresenta, justamen-
te dessa dimensão subjetiva/individual/pessoal, característica profunda da pós-mo-
dernidade, possibilidades constitutivas/autoconstituintes para o indivíduo e para
os laços sociais. Com fonte ontológica, a obra ensina que “o direito de amar” e os
outros direitos, embora contenham compreensões diferenciadas, são atitudes/ações
comuns. Ainda que os laços careçam de permanência, o amor perdura, assim como
o aprender, o desejo de saber algo. Na renúncia a um laço, a um vínculo permanen-
te, ainda há a permanência da busca por um novo vínculo, uma nova possibilidade
Recebido em 27/04/2018 – Aprovado em 19/02/2019
http://dx.doi.org/10.5335/rep.v26i2.
*
Mestre em Educação pela Unisinos, São Leopoldo, RS. Doutorando em Educação nas Ciências pela Unijuí, Ijuí, RS.
Professor no CE Dr. Dorvalino Luciano de Souza e na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões
Campus de Frederico Westphalen, RS, Brasil. E-mail: cassol@uri.edu.br
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de conexões. É possível, então, salvar o mundo. Para isso, é urgente desenvolver
uma “visão positiva do mundo moderno”, possível de ser pensada pela sociologia a
partir do indivíduo. “O ‘nós’ deve respeitar os ‘eu’ que o compõem”. Os indivíduos
não mudam a tal ponto que a natureza social, o ‘nós’ do privado, difira completa-
mente do ‘nós’ do público. Dessa forma, “indivíduos individualizados” não significa
somente gosto/prazer/satisfação de estar só; o “elo social” está “composto por fios
menos sólidos que os fios anteriores, mas engloba, nitidamente, muito mais fios”. É
esse o indivíduo individualizado que pode, simultaneamente, definir-se como mem-
bro de um grupo e como dotado de uma personalidade independente e autônoma.
Compreensões como “enclausuramento identitário”, característica das “so-
ciedades holísticas”, devem ser substituídas pelo “desenraizamento”, pela “não
pertença”, porque o papel republicano – e a escola/a educação tem lugar aí – não
é condenar cada um a carregar o peso das suas origens e de seus determinismos,
mas ensinar a cidadania, dimensão essencial da modernidade democrática. Para
a educação desses tempos, Singly ensina que eles são muito mais de “ventos” e
“velas” do que de cordas. Essa ação educacional viabiliza o desenvolver/o inventar
de novas raízes. Raízes precisam ter a dinâmica da “âncora” e da “tenda”: podem
ser lançadas/armadas e alçadas/desarmadas a qualquer momento. O “indivíduo
contemporâneo reivindica o direito à porta aberta, o direito a descomprometer-se,
mas não aprecia a interdição de compromisso”. Portanto, ele quer ter prerrogati-
vas, porque a individualização não suprime o social, apenas constitui uma das suas
formas. Na apresentação do “eu em primeiro lugar”, de forma alguma há declara-
ção de egoísmo moral. Singly significa, apenas, que nenhuma dimensão social da
identidade, atribuída e reivindicada, pode ser a trave-mestra do edifício pessoal.
A sociedade moderna pode ser compreendida com duas dimensões: “Sociedades
Holistas” e “Sociedades Individualizadas”. Conceitos muito próximos do que com-
preende Zygmunt Bauman (1925-2017) com “Modernidade Sólida” e “Modernidade
Líquida”. No entanto, nem tempos sólidos nem tempos líquidos podem desconsi-
derar as subjetividades, os “eus”, as identidades, porque é desse lugar que novos
laços/novas conexões podem ser construídos, não como amarras, cercas, mas conví-
vio/relação/tendas. É possível aprender, na análise de Singly, o quanto a liberdade
decorre não da ausência de limitações, mas da escolha das limitações assumidas e
recolocadas num projeto de vida/existência/convivência.
Os lapsos de grafia e concordância resultantes, talvez, da tradução não in-
validam a profundidade com que Singly aborda a temática do individualismo ou
do indivíduo/da individualização/da subjetividade. O autor desenvolve suas afir-
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mações, de alguma forma, tornando-as, seguidamente, absolutas/deterministas, o
que pode se constituir risco, porque inviabiliza alternativas que, inclusive, teriam
a potencialidade/viabilidade a partir do próprio indivíduo. Então, apresentam-se
contraditórias no conjunto das compreensões de Singly, inclusive porque é ele pró-
prio quem escreve: “A identidade fluida é necessariamente multidimensional”. O
modo como Singly compreende a individualidade, a subjetividade, denominando-
-a de “individualismo”, talvez aponte para uma radicalidade não condizente com
uma possibilidade paradigmática da atualidade/contemporaneidade, expressa pela
ambivalência/plurivalência, ou que tenha consciência das várias vias possíveis,
nunca únicas, de realização do “convívio”. Contudo, essas questões não invalidam
a hermenêutica, a filosofia social e a análise do indivíduo na relação com a socie-
dade/comunidade que eleva o debate desenvolvido na obra à condição de raridade,
especialmente porque, na contracorrente das tematizações/compreensões pós-mo-
dernas/contemporâneas, Singly visualiza a possibilidade de construção de laços so-
ciais e das suas manutenções, a partir do “individualismo”. É no viver as prerroga-
tivas/as demandas/as escolhas, com autonomia, e na busca pela satisfação de seus
desejos, realizando a sua vontade ontológica, que o indivíduo/o sujeito reconhece a
necessidade do outro. Por isso busca em Anthony Giddens o conceito de “segurança
ontológica”, para justificar que ainda paira, nos indivíduos individualizados, o de-
sejo de estar-com/de convívio.
Ao escrever que “o reconhecimento da alteridade é o horizonte da democracia
avançada, desde que não se perca de vista o reconhecimento da igualdade”, Singly
indica a necessidade de manutenção de alguma regulação, tanto no âmbito priva-
do/pessoal quanto na dimensão do coletivo/social, para assegurar proteção, aten-
ção personalizada, respeito mútuo e igualdade de oportunidades. Essas atitudes
formam, ou deveriam formar, o quadro da educação e da vida comum no seio de
uma sociedade democrática, porque preservam a dignidade humana. Se a educa-
ção opera no sentido da viabilização do respeito à diversidade, à individualidade
e à dignidade humana, lança, dessa ação/dessa práxis, as cepas da diversidade e
indica o diálogo como caminhos possíveis da solidariedade/dos laços sociais. A obra
indica que a “crise” do elo social é uma característica das sociedades modernas, não
um defeito do modelo; é constitutiva do modelo. Quanto ao indivíduo e à sociedade/
comunidade, Singly enfatiza: “[...] o indivíduo não se realiza apenas na discussão,
tem também necessidade de outra forma de relação com os outros para descobrir
a sua originalidade, a sua autenticidade, a sua interioridade”. Nesse sentido, “[...]
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o eu não pode ser alcançado senão pelo diálogo com um outro significativo, através
da formação de relações afectivas, amorosas e de amizade”.
Uns com os Outros tematiza três formas de individualização: “O concorrencial,
próprio do mercado; o relacional, próprio do afectivo; o cidadão, próprio do político”,
para compreender que uma “sociedade” não pode ser viável a não ser que consi-
ga propor condições que permitam aos indivíduos individualizados viver juntos,
porque cada um/cada indivíduo é único. Cada um aspira uma vida em comum.
Contudo, o particular não exclui o comum, mas abre a possibilidade de constituir,
via educação – formal e informal –, a “aprendizagem do descentramento”, ou seja,
“pôr-se no lugar do outro para saber como é que ele deve ser respeitado”. Esse com-
promisso/reconhecimento/respeito mútuo não pressupõe nem uma relação igual
de estatutos nem uma confusão das identidades, mas a relação entre “dignidade
humana, identidade pessoal e identidade social”. Nesta configuração, a realização
do eu exige, por um lado, um âmbito social e econômico elaborado conjuntamente
com a política e, por outro, um reconhecimento mútuo das diferenças afirmadas.
Referência
SINGLY, François de. Uns com os outros: quando o individualismo cria laços. Lisboa: Instituto
Piaget, 2006.