A formação de professores no Pibid: novas práticas, novos desaos
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A formação de professores no Pibid: novas práticas, novos desaos
The formation of the teachers at Pibid: new practices, new challenges
Liliane Silva de Antiqueira
*
Celiane Costa Machado
**
Elaine Corrêa Pereira
***
Resumo
Este artigo busca reetir sobre como é desenvolvida a proposta de formação do Programa Institucional de Bolsas
de Iniciação à Docência (Pibid) na Universidade Federal do Rio Grande (Furg). Para o aporte teórico, utilizam-se as
ideias de Diniz-Pereira (2008), que defende a articulação entre universidade e escola para o preparo de novos pro-
ssionais da educação, num movimento de formação acadêmico-prossional, Galiazzi e Moraes (2013) e Brandão
(2005), os quais acreditam numa proposta de formação de professores com base em comunidades aprendentes.
Além disso, são abordadas características do programa e um panorama do seu desenvolvimento na Furg. Apre
-
senta-se um recorte dos subprojetos Matemática e Interdisciplinar e como suas ações contribuem na formação
de professores e licenciandos. Conclui-se que tanto a universidade quanto a escola e a comunidade são contem
-
pladas por impactos positivos do Pibid, o qual colabora para promover uma formação acadêmico-prossional
por meio da ação-reexão-ação, articulando teoria e prática desde a sala de aula até os cursos de licenciaturas.
Palavras-chave: Formação acadêmico-prossional. Comunidades aprendentes. Formação de professores. Pibid.
Abstract
This essay has as its goal the reection about how is developed the proposal that refers to the formation of the In-
stitutional Program of the Initiation of Teaching Scholarship (Pibid) at the University Federal of Rio Grande (Furg).
For the theoretical support, it is used the ideas of Diniz-Pereira (2008) that defend the articulation between
the university and the school in order to prepare new educational professionals in an academic-professional
of formation movement, Galiazzi and Moraes (2013) and Brandão (2015) that believe in a teaching formation
proposal based on learning communities. Furthermore, it is mentioned the characteristics of the program and
an overview of its development at Furg. It is also presented a fraction of the subprojects Mathematics and Inter-
disciplinary and how their actions contribute for the formation of the teachers and undergraduated students.
Hence, not only the university but also the school and the community, are achieved by the positive impacts of
Pibid, which collaborates to promote academic and vocational training through action-reection-action, linking
theory and practice from the room class to the undergraduate courses.
Keywords: Academic-professional. Learning communities. Teaching formation. Pibid.
*
Doutora em Educação em Ciências pela Universidade Federal do Rio Grande. Formação em Matemática Licenciatura
pela Universidade Federal do Rio Grande e em Pedagogia pela Universidade Luterana do Brasil, Brasil. E-mail: liliane-
antiqueira@furg.br
**
Doutora em Matemática Aplicada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora adjunta do Instituto de
Matemática, Estatística e Física da Furg, Brasil. E-mail: celianecmachado@yahoo.com.br
***
Pós-doutora pela Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique. Professora adjunta do Instituto de Matemática,
Estatística e Física da Universidade Federal do Rio Grande, Brasil. E-mail: elainepereira@prolic.furg.br
Recebido em 23/03/2018 – Aprovado em 30/10/2018
http://dx.doi.org/10.5335/rep.v26i2.5949
Liliane Silva de Antiqueira, Celiane Costa Machado, Elaine Corrêa Pereira
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Introdução
A temática referente à formação de professores é apresentada como destaque
em vários cenários. Atualmente, a ênfase é em atribuir aos professores a função de
agentes das mudanças requeridas pela nova ordem mundial emergente. Além dis-
so, os próprios professores mostram a premência por ações de formação que deem
conta de atender às reais necessidades da escola (LIMA; GOMES, 2012).
Ao encontro dessas ações de formação, tem-se o Programa Institucional de
Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), com o objetivo de possibilitar aos alunos de
licenciaturas e professores da educação básica experiências metodológicas e práti-
cas docentes de caráter inovador e interdisciplinar. Sobre a proposta desse progra-
ma, Bernardes e Diniz-Pereira (2012, p. 253) entendem o processo de iniciação à
docência como um “[...] importante momento da formação do professor, no qual ele
se insere no meio onde desenvolverá suas atividades, passando a se constituir e ser
(auto)reconhecido como profissional”.
Surge, então, a necessidade de articular universidade e escola, para que, jun-
tas, preparem novos profissionais da educação, num movimento de formação aca-
dêmico-profissional (DINIZ-PEREIRA, 2008). Assim, acredita-se que a formação
docente tem seu início antes de o aluno ingressar na licenciatura, uma vez que a
formação perpassa todo o período escolar e se dá também no decorrer da prática
profissional, o que torna a escola espaço-tempo de formação e não somente um local
de trabalho. Por esta razão, neste texto, utiliza-se o termo formação acadêmico-
-profissional no lugar de formação inicial e continuada, por entender que, segundo
Diniz-Pereira (2011, p. 213), existe uma “[...] ligação entre as instituições universi-
tárias de formação e as escolas da educação básica”, que vai além da licenciatura e
do trabalho docente.
Diante disso, Araújo e Moura (2012, p. 77) ressaltam que os termos formação
inicial e continuada “[...] trazem em si limitações, uma vez que procuram represen-
tar uma ruptura que consideramos não existir”. Para Diniz-Pereira (2008, p. 265),
o termo formação inicial é:
[...] acriticamente adotado pela literatura especializada – que carrega consigo a ideia de
uma preparação que se inicia a partir da entrada do futuro professor em um programa
de formação docente, desconhecendo, dessa maneira, momentos e experiências anteriores
importantíssimos nesse processo de formação.
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Outro aspecto importante para se pensar a formação de professores é com-
preender o conceito de comunidades aprendentes proposto por Brandão (2005). O
autor elucida a ideia de que:
[...] a menor unidade do aprender não é cada pessoa, cada aluno, cada estudante tomado
em sua individualidade. Ela é o grupo que se reúne frente à tarefa partilhada de criar
solidariamente seus saberes. É a pequena comunidade aprendente, através da qual cada
participante ativo vive o seu aprendizado pessoal (BRANDÃO, 2005, p. 89, grifo do autor).
É o coletivo em busca do ensinar e aprender, em busca do ouvir, falar, dialogar,
partilhar. No âmbito do contexto educacional, Galiazzi e Moraes (2013, p. 265)
contribuem com essa reflexão ao afirmarem que “[...] comunidades aprendentes de
professores constituem espaços de formação qualificada para todos os que neles se
envolvem efetivamente”. Então, pode-se entender que o Pibid é uma comunidade
aprendente, na qual todos se engajam em torno das atividades, uma comunidade
em que “[...] estamos sempre, de um modo ou de outro, trabalhando em, convivendo
com ou participando de unidades sociais de vida cotidiana onde pessoas aprendem
ensinando e ensinam aprendendo” (BRANDÃO, 2005, p. 88, grifo do autor).
A partir dessas compreensões, busca-se refletir sobre o desenvolvimento da
proposta de formação do Pibid da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), com
ênfase em algumas atividades desenvolvidas no decorrer do Edital 61/2013. Para
isso, são abordadas as características gerais do programa e um panorama do seu
desenvolvimento desde sua primeira edição nessa universidade. Na sequência, são
apresentadas algumas atividades dos subprojetos Matemática e Interdisciplinar,
referentes aos anos de 2014 e 2015, e como suas ações contribuem na formação de
professores e licenciandos. Ao final, apresenta-se as conclusões obtidas.
Formação de professores na perspectiva do Pibid
O Pibid está inserido em uma matriz educacional que articula três importan-
tes vertentes: produção de conhecimento, formação de qualidade e integração entre
pós-graduação, formação de professores e educação básica (COORDENAÇÃO DE
APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR, 2011). Trata-se de
uma proposta para melhorar a qualidade da formação de professores nos cursos
de licenciatura, promovendo ações e intenso diálogo entre a instituição de ensino
superior (IES) e as escolas da rede pública, buscando, dessa forma, inserir os licen-
ciandos no contexto escolar desde o início da formação acadêmica.
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Após a inserção, os licenciandos planejam e desenvolvem atividades didático-
-pedagógicas sob a orientação do professor vinculado a uma licenciatura da IES e
de um professor atuante na escola, o qual recebe o nome de supervisor. Esse entro-
samento é muito significativo na formação de ambos, na medida em que trabalham
juntos e refletem sobre essas experiências. É uma iniciação à docência, estando
presente no espaço escolar. Além disso, os alunos da educação básica são contem-
plados com atividades que os auxiliam na aprendizagem e na sua formação. Esse
trabalho coletivo está evidenciado nas palavras de Galiazzi e Moraes (GALIAZZI;
MORAES, 2013, p. 266), ao afirmarem que:
Em comunidades aprendentes de formação de professores o foco está num processo siste-
mático, voltado para atingir determinados objetivos, especialmente havendo um esforço
coletivo para melhorar resultados individuais e coletivos de aprendizagem de todos os par-
ticipantes.
Desse processo de formação, emerge o entrelaçamento entre teoria e prática,
pois o licenciando vivencia o cotidiano da escola e se percebe professor, atuando
diretamente na sala de aula, diante de situações e desafios do contexto escolar.
No entanto, ele não assume a função do professor, nem realiza outras atividades
administrativas na escola.
Remetendo aos objetivos pedagógicos do Pibid, o relatório de gestão (COOR-
DENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR,
2013b, p. 69) afirma que o programa “[...] é pautado em pressupostos teórico-meto-
dológicos que articulam teoria-prática, universidade-escola e formadores-forman-
dos”. Essa interação enriquece o processo formativo da docência com a finalidade
“[...] de aperfeiçoar os elementos teórico-práticos para o magistério e possibilitar
que o trabalho dos futuros professores seja mobilizado pela ação-reflexão-ação”
(COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPE-
RIOR, 2013b, p. 70).
É nesse sentido que Diniz-Pereira (2008) defende a parceria entre universi-
dade e escola para a formação de professores da educação básica, ou seja, ações
conjuntas com propósitos comuns. “Essas duas instituições, universidades e esco-
las, deveriam compartilhar responsabilidades em termos da complexa tarefa de
preparar novos profissionais da educação” (DINIZ-PEREIRA, 2008, p. 1).
Diante dessa dinamicidade estabelecida entre o Pibid e o processo formativo dos
professores, Barbosa e Dantas (2014, p. 18) reforçam que esse programa “[...] possui
os elementos necessários para criar as condições para uma formação inicial consis-
tente, articulada e que realmente seja fruto do diálogo entre universidade e escola”.
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Nesse viés, Rocha e Zibetti (2014, p. 149) acrescentam que “[...] a integração entre
IES e escola básica, a formação por meio de bolsas e a dicotomia entre teoria e práti-
ca, de modo geral, apontam o PIBID como uma política educacional compensatória”.
No que concerne à ideia de iniciação à docência, Reichert, Moana e Lima
(2014, p. 15) consideram que “[...] essa formação se faz por um estar lá, mas, mais
do que isso, é por um estar dentro: o bolsista mergulha nessa realidade, encharca-
-se dela... É o seu olho que vê. Essa experiência não é possível ter quando se olha
do exterior”. Ao encontro dessas constatações, alguns dos princípios norteadores do
programa são:
I - Incentivar a formação de docentes em nível superior para a educação básica; II - Contri-
buir para a valorização do magistério; III - Inserir os licenciandos no cotidiano de escolas
da rede pública de educação, proporcionando-lhes oportunidades de criação e participação
em experiências metodológicas, tecnológicas e práticas docentes de caráter inovador e in-
terdisciplinar que busquem a superação de problemas identificados no processo de ensino
aprendizagem; IV - Incentivar escolas públicas de educação básica, mobilizando seus pro-
fessores como coformadores dos futuros docentes e tornando-as protagonistas nos processos
de formação inicial para o magistério; V - Contribuir para a articulação entre teoria e
prática necessárias à formação dos docentes, elevando a qualidade das ações acadêmicas
nos cursos de licenciatura (COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL
DE NÍVEL SUPERIOR, 2013b, p. 70).
Tais princípios regulamentaram os seis editais lançados, desde 2007 até 2013.
O primeiro foi para atender às demandas de formação nas áreas de Física, Quí-
mica, Biologia e Matemática, devido à carência de professores nessas disciplinas.
Nos editais posteriores, houve uma progressiva expansão do programa, passando a
englobar todas as áreas do conhecimento e um número expressivo de IES (BARBO-
SA; DANTAS, 2014). Cabe destacar que, em 2018, ano de conclusão do sexto edital,
a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) lançou o
Edital 07/2018, visando à continuidade do Pibid por um período de dezoito meses.
Gatti et al. (2014, p. 106) sinalizam que o Pibid como política pública con-
tribui para a “[...] valorização da profissão de professor, [...], é um programa que
desacomoda as licenciaturas e mobiliza escolas. Por suas contribuições deve ser
institucionalizada e tornada perene como política de Estado”. Os autores também
mencionam outras contribuições do programa, entre elas: colabora para a perma-
nência dos estudantes nas licenciaturas e para a redução da evasão; estimula a
iniciativa e a criatividade, incentivando os licenciandos a planejar e desenvolver
atividades de ensino e a construir diferentes materiais didáticos e pedagógicos;
aproxima o professor supervisor do meio acadêmico, ajudando a articular o conhe-
cimento acadêmico com o conhecimento da prática em uma perspectiva formativa;
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ajuda a questionar construtivamente a qualidade das práticas formativas no âmbi-
to da docência na própria IES (GATTI et al., 2014).
No que se refere às escolas e aos alunos da educação básica, o Pibid, por meio de
suas ações, possibilita melhorias na qualidade do ensino, com novas maneiras de en-
sinar, aulas mais criativas, com atividades práticas diferenciadas e interdisciplina-
res, além da ativação ou do uso frequente de laboratórios e melhor uso da biblioteca
(GATTI et al., 2014). Ademais, o Pibid tem incentivado a formação acadêmico-profis-
sional docente e contribuído para o contato dos estudantes com o cotidiano escolar da
educação básica, o que vai ao encontro dos objetivos propostos pelo programa.
Coerente com as informações e reflexões apresentadas, entende-se o Pibid
como um espaço de formação acadêmico-profissional que corrobora, diretamente,
com a formação do professor e com a sala de aula da educação básica, principal-
mente por possibilitar a integração entre escola e universidade. Várias ações são
desenvolvidas nas diversas universidades do país, e, com isso, novos desafios são
postos aos integrantes. A seguir, é apresentada a proposta de formação do Pibid/
Furg, com ênfase na participação da universidade no Edital 61/2013.
A formação acadêmico-prossional do Pibid/Furg na perspectiva de uma
comunidade aprendente
A Furg é uma das IES participantes do Pibid e possui como princípio teórico
a compreensão de que o professor se forma e aprende a gostar de ser professor
na atividade com outros professores (COLARES, 2013). A proposta institucional
tem como fundamento as comunidades aprendentes de professores, definidas por
Galiazzi e Moraes (2013, p. 264) como “[...] grupos de pessoas em torno de ativida-
des articuladas por objetivos comuns que têm foco na linguagem e nos discursos
específicos de diferentes campos de conhecimento”. Entende-se que “[...] essas ati-
vidades são especialmente a produção textual em que os participantes se envolvem
na reconstrução do conhecimento existente e expresso por todos e de certa forma
da própria comunidade” (GALIAZZI; MORAES, 2013, p. 264).
O termo aprendente deriva da aventura interior e pessoal que é o aprender,
baseado nos momentos de aprendizagem que são resultantes da convivência em e
entre diferentes grupos, além das relações de partilha e de interações estabelecidas
com outras pessoas. Isso acontece nos mais diversos contextos sociais e lugares,
nos quais um grupo, contendo pessoas com objetivos comuns, ensinam e apren-
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dem mutuamente. Assim, tem-se a constituição de diferentes tipos de comunidades
aprendentes, de modo que todos aprendem juntos (BRANDÃO, 2005).
É com esse olhar que o Pibid/Furg forma uma comunidade aprendente, na
qual os integrantes se engajam em torno das atividades. Trata-se de “[...] uma
nova concepção do viver como partilhar experiências, saberes e sensibilidades em
situações e contexto regidos cada vez mais pela partilha, pela cooperação, pela soli-
dariedade, pela gratuidade” (BRANDÃO, 2005, p. 91). Esse movimento de partilha
está presente na formação que o programa possibilitou a todos seus participantes,
por meio de ações que permearam os diferentes subprojetos.
Nessa perspectiva, Galiazzi et al. (2013) consideram que as comunidades não
surgem prontas, aprendem a ser comunidades aprendentes ao longo de sua exis-
tência, na medida em que as aprendizagens se ampliam e os relacionamentos e as
compreensões se intensificam. Assim, o Pibid/Furg é um espaço de aprendizagem
para todos os envolvidos, com intensa interação nas ações desenvolvidas, em que
todos ensinam e aprendem coletivamente.
Com esse foco, a universidade participou dos editais lançados pela Capes,
cujas propostas foram elaboradas a partir da compreensão de que a docência não se
dá no isolamento, mas na interação entre os pares (GALIAZZI; COLARES, 2013).
A Tabela 1 mostra a participação do Pibid/Furg e a inserção dos cursos relaciona-
dos às licenciaturas.
Tabela 1 – Desenvolvimento do Pibid/Furg
Editais Vigência Subprojetos
Número de
licenciandos
Número de
supervisores
1/2007
Mar. 2009 a
Dez. 2010
Matemática, Física, Biologia e Química 63 14
2/2009
Mar. 2010 a
Jan. 2012
Artes, Letras/Inglês, Letras/Português, Pedagogia, Le-
tras/Espanhol e História
79 14
1/2011
Jul. 2011 a
Fev. 2014
Matemática, Física, Biologia, Química e novos subproje-
tos Educação Física, Geografia e Letras/Francês
116 22
11/2012
Ago. 2012
a Fev. 2014
Letras/Inglês, Letras/Português, Pedagogia, Letras/Es-
panhol, Artes e História, e novos subprojetos Gestão
Escolar e Educação Ambiental
160 22
61/2013
Mar. 2014 a
Fev. 2018
Matemática, Física, Biologia, Química, Educação Física,
Geografia, Letras/Francês, Letras/Inglês, Letras/Portu-
guês, Pedagogia, Letras/Espanhol, Interdisciplinar, Histó-
ria, Artes, Ciências/EaD e Letras/Espanhol/EaD
265 46
Fonte: elaboração dos autores a partir de Galiazzi e Colares (2013).
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Conforme consta na Tabela 1, por meio do Edital 1/2007, houve o desenvolvi-
mento da primeira edição do Pibid na Furg, atendendo quatro cursos de licencia-
turas, isso se deve pela carência de profissionais nas respectivas áreas. Foram 14
professores supervisores da rede pública de ensino e mais de 60 licenciandos que
realizaram experiências metodológicas de acordo com o contexto escolar do municí-
pio onde se situa a instituição.
No Edital 2/2009, as áreas de formação foram ampliadas e a universidade
participou com a proposta denominada de “Práticas Educativas na Educação Bá-
sica: diálogos em roda na formação de (futuros) professores na Furg”. A Tabela 1
mostra as 6 licenciaturas contempladas, totalizando 14 professores supervisores e
79 licenciandos.
Posteriormente, para o Edital 1/2011, o Pibid/Furg apostou no desenvolvimen-
to do projeto “Ampliando práticas educativas na Educação Básica: diálogos em roda
na formação permanente de professores na Furg”. Assim, permitiu a continuidade
das licenciaturas do primeiro edital e a inserção de outras três áreas: Educação
Física, Geografia e Letras/Francês. Com isso, foram 22 professores supervisores
e 116 licenciandos a se envolverem no Pibid. Para o Edital 11/2012, as áreas de
licenciatura abrangidas foram: Artes, Letras/Inglês, Letras/Português, Letras/Es-
panhol, Pedagogia, História, Educação Ambiental e Gestão Escolar.
Posteriormente, houve o Edital 61/2013, e a Furg participou com o projeto ins-
titucional “Diálogos em Roda na formação acadêmico-profissional de professores
na Furg” (FURG, 2013), o qual contemplou, além da Matemática, as licenciaturas
em Física, Biologia, Química, Educação Física, Geografia, Artes, Letras/Francês,
Letras/Inglês, Letras/Português, Letras/Espanhol, Pedagogia e História. A inova-
ção esteve na inserção do subprojeto Interdisciplinar e das licenciaturas dos cur-
sos a distância: Ciências e Letras/Espanhol. O objetivo foi compreender a escola e
a universidade juntas, integrando professores da educação básica e licenciandos
como sujeitos que aprendem em conjunto.
As escolas participantes do Pibid/Furg foram selecionadas por meio da par-
ceria com a Secretaria Municipal de Educação e a Coordenadoria Regional de
Educação do município. Ainda, há a ênfase na interlocução entre licenciandos e
instituição escolar, sendo que a sistematização das atividades, referente ao Edital
61/2013, ocorreu com a organização dos licenciandos em equipes, as quais frequen-
tavam semanalmente as escolas parceiras para o desenvolvimento de ações e ofi-
cinas, visando auxiliar na aprendizagem dos alunos, sob a orientação do professor
supervisor.
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Além disso, o professor coordenador de cada subprojeto, os professores su-
pervisores e os licenciandos realizavam rodas de formação na universidade, para
discutirem o planejamento de ações e como essas poderiam contribuir efetivamente
na aquisição de conhecimentos dos alunos da educação básica. As ações ocorreram,
inicialmente, nas turmas dos professores supervisores, todavia, conforme a deman-
da de outros professores, essas foram estendidas para outras turmas.
Em relação ao Edital 61/2013, o programa possibilitou a formação de 265
licenciandos distribuídos em 16 subprojetos, juntamente com 46 professores da
educação básica (CAPES, 2013a), proporcionando a todos um espaço de experiên-
cias e amplas oportunidades de estudos, pesquisa e extensão. Colares (2013, p. 24)
aponta que:
O PIBID na FURG tem conseguido alcançar seus objetivos, inserindo os licenciandos bolsis-
tas no cotidiano das escolas, e dessa maneira propiciando uma educação de qualidade para
todos. Nossas ações, voltadas ao fomento de metodologias e práticas docentes de caráter
inovador, com o uso dos recursos da tecnologia da informação e da comunicação, inter-rela-
cionadas com a realidade local das escolas, não visam somente à formação inicial de futuros
professores licenciandos, mas também à melhoria para a Educação Básica.
Nesse processo de formação, o Pibid/Furg abarca diferentes dimensões da ini-
ciação à docência, como o princípio da pesquisa de modo articulado e interdiscipli-
nar com todos os subprojetos; o estudo dos documentos nacionais que regulam a
formação de professores; a ênfase na escrita em sua função epistêmica na formação
docente; a leitura e a discussão de referenciais teóricos educacionais contempo-
râneos, entre outros. A cada proposta do programa, novas ações foram criadas e
intensificadas, um exemplo é a produção semestral de uma narrativa com histórias
de sala de aula, que contam experiências da docência. Tais produções foram feitas
pelos professores e licenciandos, culminando em cinco edições do Álbum do Pibid
Furg, são eles: Galiazzi e Paulitsch (2011); Colares, Galiazzi e Paulitsch (2013);
Colares, Galiazzi e Paulitsch (2014); Galiazzi, Colares e Paulitsch (2015); Galiazzi,
Colares e Paulitsch (2016).
No Pibid/Furg, em relação ao Edital 61/2013, as rodas de formação foram
realizadas semanalmente em cada subprojeto e constituídas por estudantes de
licenciaturas, professores coordenadores e professores supervisores. Nelas, os inte-
grantes puderam expor dúvidas, realizar discussões teóricas, fazer reflexões entre
a teoria estudada e a prática vivenciada no cotidiano das escolas. Foi na roda do
Pibid que os licenciandos elaboraram o planejamento de ações, juntamente com a
presença do professor da escola e do professor coordenador, de modo a partilharem
experiências, contribuindo para a sua formação e para a formação dos demais.
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Além disso, houve a escrita do relatório anual, em que cada participante fez o
registro das atividades realizadas ao longo do ano. A escrita reflexiva também fez
parte das ações do programa, por meio de um portfólio coletivo construído por cada
subprojeto. Nele, os registros foram feitos de maneira rotativa entre os grupos das
escolas. Atrelado a isso, foram produzidos trabalhos científicos para a participação
de eventos, como a Mostra de Produção Universitária e os Encontros Interinstitu-
cionais de Pibid no Rio Grande do Sul.
A carga horária semanal de licenciandos e professores era organizada consi-
derando: um encontro semanal na Furg, com o grupo de cada subprojeto, a prepa-
ração e organização das atividades na escola, um encontro semanal na escola, para
desenvolvimento e planejamento das atividades e outras ações específicas de cada
subprojeto. No Pibid/Furg, também aconteceram, anualmente, atividades integra-
doras de socialização das aprendizagens (FURG, 2013), como o Encontro Anual do
Pibid, atividades culturais, exposições, oficinas, reuniões de grupos, etc.
Dessa forma, a formação acadêmico-profissional é intensificada pela integra-
ção entre teoria e prática e pela aproximação entre a Furg e as escolas atendidas
no município. Neste artigo, apresenta-se um recorte do subprojeto Matemática e de
um dos grupos do subprojeto Interdisciplinar, referentes ao Edital 61/2013.
Subprojeto Matemática
As Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Matemática, em seu
parecer CNE/CES nº 1.302/2001 (BRASIL, 2001), fazem referência às competências
e às habilidades que o professor de Matemática deve ter. Dentre essas, destaca-se:
a elaboração de propostas com foco no ensino e na aprendizagem de Matemática
para a educação básica; a produção de materiais didáticos; e o desenvolvimento de
estratégias de ensino que favoreçam a criatividade, a autonomia e a flexibilidade
do pensamento matemático dos alunos.
Nesse sentido, as ações desenvolvidas no subprojeto Matemática vêm ao en-
contro do aperfeiçoamento dessas competências, contribuindo para a inovação da
prática de licenciandos e professores da educação básica. Sendo assim, os obje-
tivos centrais que nortearam o subprojeto Matemática do Pibid/Furg, no Edital
61/2013, foram promover a formação acadêmico-profissional de forma a constituir
um professor pesquisador e contribuir para qualificar a educação básica, amplian-
do as possibilidades de aprendizagem dos alunos. Visando atender esses objetivos,
a equipe de licenciandos em Matemática participantes do subprojeto era dividida
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para auxiliar nas dificuldades dos alunos e nas necessidades das escolas. Nos en-
contros semanais, juntamente com professores da educação básica, discutiam-se o
planejamento e o desenvolvimento de oficinas conforme o calendário das escolas.
Desse modo, a proposta do subprojeto Matemática teve como proposição o pro-
cesso investigativo, uma vez que a pesquisa foi considerada um elemento essencial
na formação profissional do professor. De acordo com Machado e Pinho (2013, p.
202-203), o subprojeto está “[...] efetivando um trabalho coletivo, que procura de-
senvolver a autonomia intelectual dos licenciandos, [...] e assim, a pesquisa per-
meia todo o fazer metodológico”. Além disso, as autoras argumentam que o diálogo
está presente nas rodas de conversas.
Os questionamentos iniciam-se já na fase de imersão gradativa no ambiente escolar, licen-
ciandos, professor da universidade e professor supervisor (professor da escola) em intenso
diálogo, a partir das observações e constatações começam a problematizar seus modos de
agir. [...]. Os diálogos permeados em nossos encontros constituem rodas de conversas, con-
ferindo-se a legitimidade da articulação dos conhecimentos teóricos com a prática desenvol-
vida em sala de aula (MACHADO; PINHO, 2013, p. 203).
Ao encontro desse processo formativo e coletivo, o subprojeto Matemática sem-
pre preconizou suprimir os preconceitos e as relações hierárquicas. Assim, todos
aprendem, juntos, diferentes modos de avaliação, de comportamentos e de outros
aspectos presentes na realidade escolar e no ensino da Matemática. A iniciação na
escola realiza-se com visitas orientadas pelo professor supervisor. Ao conhecer o
ambiente escolar, acredita-se no favorecimento das capacidades de reflexão, coo-
peração e participação, de maneira que os licenciandos possam intervir em uma
realidade da qual estão fazendo parte (MACHADO; PINHO, 2013).
Além disso, na sexta edição do Pibid/Furg, houve o desenvolvimento de uma
proposta de atividades denominada “Movimentando-se com a Escrita” (ANTI-
QUEIRA; MACHADO, 2017), realizada, semanalmente, com as demais atividades
do subprojeto, no período de outubro de 2014 a dezembro de 2015. Foram desen-
volvidas sete práticas envolvendo a produção de diferentes gêneros textuais e te-
máticas articuladas ao ensino da Matemática e a conteúdos da educação básica.
Ainda, a proposta desenvolvida propiciou, além da prática da linguagem escrita,
atividades de leitura e pesquisa, análises de artigos, momentos de diálogo com e
entre os participantes.
No que se refere a outras ações desenvolvidas, o subprojeto Matemática, até o
encerramento do Edital 61/2013, contemplou atividades específicas como: planeja-
mento de atividades extraclasse, de acordo com as dificuldades dos estudantes da
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educação básica; articulação dos conteúdos de maneira interdisciplinar; desenvol-
vimento de material concreto e virtual relacionado aos conteúdos escolares; e ela-
boração e desenvolvimento de oficinas para alunos da educação básica. Machado e
Pinho (2013, p. 210) sinalizam que “[...] alternativas são criadas a fim de contem-
plar um trabalho de exploração e/ou de aplicação de conceitos matemáticos”.
A cada oficina desenvolvida, foram elaborados roteiros de sala de aula, cons-
tando a descrição das atividades, sua caracterização e a escrita reflexiva indivi-
dual de cada integrante. Ainda, a plataforma Moodle foi utilizada como meio de
comunicação entre licenciandos, professores supervisores e coordenadores, servin-
do também para o registro das atividades desenvolvidas ao longo do subprojeto.
Semanalmente, aconteciam as rodas de formação do Pibid Matemática na univer-
sidade, nas quais eram realizadas pesquisas, estudos e leituras, de modo a subsi-
diar a elaboração de ações para atender às demandas das escolas levantadas pelo
professor supervisor. Conjuntamente, eram discutidas metodologias para o ensino
da Matemática.
Uma das oficinas elaboradas no subprojeto Matemática do Pibid/Furg foi de-
nominada de “Boliche Matemático” (RODRIGUES et al., 2014), desenvolvida por
três licenciandos, em uma turma de 7º ano do ensino fundamental, sob a orienta-
ção da professora supervisora. O objetivo foi auxiliar nas operações matemáticas
envolvendo as regras de sinais. Sobre essa atividade, os licenciandos ressaltam
que “[...] os alunos compreenderam melhor as regras de sinais nas operações, tra-
balhando unidos nas suas equipes e ajudando os demais colegas. Eles gostaram
e participaram não se dispersando com nenhuma outra movimentação ao redor”
(RODRIGUES et al., 2014, p. 3).
Outra oficina foi a “Trilha das Frações” (ROZA; XAVIER, 2014), desenvolvi-
da com 45 alunos do 6º ano do ensino fundamental, com o objetivo de auxiliar
na compreensão de multiplicação e divisão de frações. Os alunos tinham que ir
avançando casas da trilha conforme acertavam questões envolvendo frações, e isso
foi fundamental para atrair a atenção deles. As autoras da oficina afirmam que:
“Trabalhamos [...] sem que o aluno sinta a pressão de aprender, notando assim que
as formas de aprender são diversas, logo, instigamos a curiosidade deles e atraímos
a atenção para a aula” (ROZA; XAVIER, 2014, p. 2).
Como parte desse conjunto de ações, a oficina “Explorando a Divisibilidade
através do Jogo da Memória” (SOARES et al., 2014) foi desenvolvida com alunos
do 6º ano do ensino fundamental e consistiu em quatro momentos, nos quais os
estudantes puderam: refletir, discutir, pesquisar, interpretar, escrever e exercitar.
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Os autores da oficina observam que “[...] os estudantes trabalhando coletivamente,
[...] resumiram e reescreveram, com suas palavras, as explicações referentes a cada
critério de divisibilidade, buscando dessa forma aproximá-las a sua realidade”
(SOARES et al., 2014, p. 2). Além disso, os estudantes desenvolveram habilidades
e técnicas para a resolução das contas, reconhecendo e relacionando os critérios de
divisibilidade aos seus algarismos correspondentes.
Outras estratégias de ensino também foram realizadas pelos licenciandos.
Ressalta-se que o processo de elaboração, planejamento e execução das oficinas
propicia aos envolvidos um conhecimento produzido na ação e sobre a ação de en-
sinar. De certa forma, isso contribui para a formação de um profissional reflexivo e
crítico de suas práticas (PIMENTA; GHEDIN, 2012).
No subprojeto Matemática do Pibid/Furg, licenciandos e professores tornam-
-se sujeitos do aprender, exercendo os papéis de questionadores e investigadores.
Isso é reforçado pela ideia de Brandão (2005, p. 90) de que, “[...] numa comunidade
aprendente, todos têm algo a ouvir e algo a dizer. Algo a aprender e algo a ensi-
nar”. Ainda, o autor considera uma comunidade aprendente como: “Lugares de
trocas e de reciprocidades de saberes, mas também de vidas e de afetos, onde a
aula expositiva pode ser cada vez mais convertida no círculo de diálogos” (2005,
p. 90). É nesse espaço de formação que professores e licenciandos podem agir com
criatividade, realizar trabalhos individuais e coletivos, bem como experienciar o
ambiente escolar.
Subprojeto Interdisciplinar
Um dos subprojetos do Pibid/Furg, referente ao Edital 61/2013, foi o Inter-
disciplinar, denominado “Abordagens Temáticas para Sociedades Sustentáveis”.
Este foi desenvolvido de forma a articular a formação acadêmico-profissional dos
professores com as diferentes áreas do conhecimento. As ações tiveram como foco a
sustentabilidade, o contexto sociocultural e as abordagens temáticas interdiscipli-
nares e transversais desenvolvidas nas escolas. Tudo isso com base no planejamen-
to integrado, no aprofundamento teórico e em discussões, no princípio da pesquisa
e nas rodas de formação como processo de constituir-se professor.
O subprojeto Interdisciplinar era dividido em quatro grupos. Neste artigo, são
apresentadas algumas ações de um desses grupos, referentes ao período de 2014
a 2015. Fizeram parte da equipe 15 acadêmicos oriundos de diferentes licenciatu-
ras, três professoras supervisoras, que foram coordenadoras pedagógicas de três
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escolas e responsáveis, cada uma, por cinco licenciandos no desenvolvimento das
atividades que visavam atender às necessidades das escolas.
O subprojeto Interdisciplinar teve como objetivo compreender e discutir sobre
interdisciplinaridade e formação de professores. Para isso, o grupo realizava leitu-
ras referentes a essas temáticas, com a intenção de se aprofundar teoricamente e
realizar produções de resenhas e escritas reflexivas, bem como discussões e posta-
gens na Plataforma Moodle. Além dessas práticas de leitura e escrita, ressalta-se
a formação acadêmico-profissional numa perspectiva interdisciplinar, a partir da
inserção de licenciandos nas escolas, com a mediação das professoras superviso-
ras, para o processo de reconhecimento e construção de um diagnóstico acerca do
contexto social. Para isso, foram realizadas visitas nas salas de aula, observações
sobre a estrutura, reuniões com a equipe diretiva, conversas com professores e
funcionários das escolas.
Com base nesse diagnóstico, diversos projetos interdisciplinares e práticas pe-
dagógicas foram elaborados e desenvolvidos nas escolas parceiras, como o projeto
“O uso da horta na produção de alimentos”, com práticas de confecção de espanta-
lho, elaboração de tabelas, aulas de culinária com aproveitamento de alimentos,
paródias e oficinas. Também foi desenvolvido o projeto “Trabalhando a História da
Escola”, no qual os licenciandos realizaram entrevistas, fizeram levantamento de
material bibliográfico e de fotos da escola e coletaram depoimentos, para posterior-
mente construírem o memorial da escola.
Diante do exposto, constata-se que o Pibid aposta na formação de professo-
res, oportunizando a cada licenciando o seu reconhecimento como futuro professor
e o pertencimento ao seu espaço de atuação. O subprojeto Interdisciplinar busca
relacionar esta formação com as vivências que são adquiridas na construção e apli-
cação de projetos interdisciplinares, apontando as dificuldades e os prazeres que
envolvem a prática docente, além do entrelaçamento dos projetos com as discipli-
nas das escolas.
Considerações nais
As atividades desenvolvidas no Pibid/Furg são sustentadas a partir da forma-
ção de professores em comunidades aprendentes, todos ensinam e todos aprendem,
num processo de interação constante. Por esta razão, o desenvolvimento do Pibid
na instituição causou impactos positivos, desde o primeiro edital, na formação de
centenas de licenciandos, de aproximadamente 50 professores de escolas da educa-
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ção básica do município de Rio Grande, RS, e de professores da universidade. Isso
aconteceu pela articulação entre os 16 cursos de licenciatura e o ambiente escolar,
o qual envolve a escola, a família e a comunidade.
As experiências metodológicas foram divulgadas em diversos trabalhos apre-
sentados por licenciandos, publicados em eventos como o Encontro de Investigação
na Escola e a Mostra de Produção Universitária, além dos diálogos estabelecidos
com outras áreas e eventos específicos de cada área. Além disso, houve o envolvi-
mento dos participantes em pesquisas de trabalhos de conclusão de cursos, disser-
tações e teses; como exemplo, tem-se a tese de Antiqueira (2018).
Quanto à elaboração de materiais didáticos, várias oficinas com atividades
diversificadas e integradas ao currículo foram desenvolvidas para alunos das es-
colas públicas, o que possibilitou aos licenciandos o conhecimento do processo de
aprendizagem e da realidade dessas instituições. Outros impactos se referem à
sensibilização para as questões ambientais na escola, em casa e na comunidade e à
melhora nas produções textuais dos alunos.
Em suma, o Pibid desenvolvido no âmbito da Furg colabora para promover
uma formação acadêmico-profissional por meio da ação-reflexão-ação, articulando
teoria e prática, desde a sala de aula até os cursos de licenciatura. O recorte dos
subprojetos apresentados neste artigo evidenciou que os licenciandos se envolve-
ram em práticas articuladas com a realidade das escolas e, consequentemente,
comprometeram-se com os desafios inerentes ao dia a dia da sala de aula.
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